A opção por três volantes divide opiniões entre torcedores de qualquer equipe. Há quem considere a tática exclusivamente preocupada em reforçar a proteção à defesa. Também existem aqueles que enxergam maior liberdade para os laterais e pontas, além de algum atleta de marcação com característica ofensiva. Em meio a diversas maneiras de compreensão, o técnico Adilson Batista está convicto de que, neste momento, é o esquema ideal para o Cruzeiro. Ele escalará trinca com Filipe Machado, Jadsom e Pedro Bicalho diante do Uberlândia, às 16h de domingo, no Mineirão, pela sétima rodada do Campeonato Mineiro.

Nessa quinta-feira, os titulares do Cruzeiro enfrentaram jovens do sub-17 em jogo-treino na Toca da Raposa II. Nos primeiros 30 minutos da atividade, foi possível observar o posicionamento dos volantes. Filipe Machado ficou mais próximo aos zagueiros Arthur e Leo e se responsabilizou pela saída de bola. Jadsom caiu pelo lado direito, junto a Valdir e Maurício, enquanto Pedro Bicalho se movimentou na esquerda, em sintonia com João Lucas e Everton Felipe. A referência no ataque era Marcelo Moreno, que, a pedido de Adilson, movimentava-se para fora da área com o intuito de tabelar e abrir espaços.

Defensivamente, Machado, Jadsom e Pedro Bicalho foram pouco exigidos, visto que o time juvenil, reforçado por Jhonata Robert e Vinícius Popó, não conseguia manter a bola dominada por muito tempo. O grande volume de jogo dos titulares induziu os volantes a avançarem para trocar passes no ataque. E Bicalho teve grande oportunidade aos 21 minutos, quando recebeu assistência de Maurício e, cara a cara com Vitor Eudes, chutou ao lado. Se falhou na conclusão, o meio-campista retribuiu o ‘presente’ ao colega, que fez o primeiro gol da atividade em belo toque por cobertura no ângulo.

Do trio de volantes escolhidos por Adilson, Filipe Machado conta com maior rodagem no futebol. Aos 24 anos, foi revelado na base do Grêmio, em 2016, e defendeu Boa Esporte e São José-RS. Embora prefira jogar de primeiro volante, tem facilidade na criação e para chutar de longa distância. Em 59 jogos como profissional, marcou seis gols. No Cruzeiro, ainda tenta conquistar a confiança dos torcedores, que o criticaram por uma falha no jogo contra o Tupynambás. Ele furou ao tentar dominar uma bola e permitiu que Fabinho Alves fizesse o segundo gol do adversário. Ainda assim, recuperou-se na partida, acertou 91 de 94 passes (96,8%) e participou da virada por 4 a 2, em Juiz de Fora, pela quarta rodada do Mineiro.

Os parceiros de Machado no meio-campo do Cruzeiro são garotos promovidos das categorias de base. Jadsom, de 18 anos, chegou à Toca em fevereiro de 2019, contratado por R$ 1 milhão ao Sport (50% dos direitos econômicos). Versátil, cumpriu a função de armador na equipe sub-20, pela qual marcou seis gols em 39 partidas no ano passado. Em recente entrevista, o técnico Adilson Batista elogiou o meio-campista, considerando-o com potencial para se tornar um “jogador top”. Pedro Bicalho, também de 18, ingressou na base do clube ainda adolescente, aos 13, em 2014. Na temporada passada, contabilizou um gol em 25 jogos.

A decisão de colocar Filipe Machado, Jadsom e Pedro Bicalho é uma espécie de resgate da metodologia de Adilson Batista em sua primeira passagem pelo Cruzeiro, entre janeiro de 2008 e junho de 2010. Naquela época, o treinador não escondia a preferência por escalar três volantes, mesmo a contragosto de parte da torcida. Em seu início de trabalho, trouxe consigo do Jubilo Iwata, do Japão, o trio Fabrício, Henrique e Marquinhos Paraná. Em maio de 2009, indicou Fabinho, ex-Corinthians. Vale lembrar que o elenco já contava com Ramires, Charles e Elicarlos, todos remanescentes de 2007.

Adilson estreou como técnico do Cruzeiro em 27 de janeiro de 2008, com uma empolgante goleada por 4 a 0 em cima do Uberaba, no Mineirão, pelo estadual. Naquele jogo, o meio-campo foi formado por Fabrício, Charles, Ramires e Wagner. Marquinhos Paraná, curinga do grupo, jogou improvisado na lateral direita – foi deslocado para volante em razão da substituição de Charles por Apodi, no intervalo. Já Henrique, que machucou o tornozelo esquerdo na pré-temporada de janeiro, estreou apenas no dia 3 de abril, na vitória sobre o San Lorenzo da Argentina por 3 a 1, pela fase de grupos da Copa Libertadores.

Dos volantes frequentemente utilizados por Adilson na primeira passagem pelo Cruzeiro, Charles foi o que ficou por menos tempo na Toca, já que se transferiu para o Lokomotiv Moscou, da Rússia, por R$ 11,9 milhões, em agosto de 2008. À época, Ramires já despontava como atleta de ótimas características ofensivas, tendo contabilizado, ao término do ano, 13 gols em 47 jogos. Em 2009, manteve a fama de artilheiro ao balançar a rede 11 vezes em 30 partidas. Fabrício e Henrique eventualmente faziam gols, sobretudo em chutes de longa distância. Já Marquinhos Paraná demonstrava qualidade na distribuição de bola e em passes verticais, porém quase não participava em finalizações.

A tática de três volantes de Adilson Batista não impediu a ofensividade do Cruzeiro, que marcou 324 gols em 170 jogos entre janeiro de 2008 e junho de 2010 (média de 1,9). Bem servidos pelos atletas de meio-campo, os atacantes alcançaram números expressivos. Em 2008, Guilherme contabilizou 23 gols em 51 jogos, enquanto Marcelo Moreno fez 15 em 22 partidas. Em 2009, Wellington Paulista terminou a temporada na condição de artilheiro, com 26 gols em 47 jogos. Na cola do ex-camisa 9 apareceu Kleber Gladiador, com 24 tentos em 38 apresentações.

Em 2020, Adilson recorre às antigas estratégias na busca por soluções para o setor defensivo do Cruzeiro, bastante questionado após o revés para o Tombense, por 2 a 0, na última quinta-feira, em jogo atrasado da segunda rodada do Mineiro. E o pedido à diretoria pela contratação de Foguinho, do Criciúma, mostra que o comandante tende a encontrar no esquema com três volantes um padrão visando à disputa da Série B do Campeonato Brasileiro, principal objetivo do clube este ano.

Estado de Minas

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