Pequenos produtores de Catuti, no Norte de Minas, mesmo enfrentando a histórica falta de chuvas na região, têm alcançado bons índices de produtividade, principalmente nos plantios de algodão e de quiabo. O cultivo deste último produto, que se estende também a outro município vizinho, alcança resultados tão satisfatórios que a produção está sendo “exportada” para o grande mercado consumidor de São Paulo.

Ao mesmo tempo, são mantidas as lavouras de subsistência. Estes pequenos produtores superam a adversidade climática a partir de métodos inovadores, com o uso racional da água.

Os bons resultados ocorrem porque os agricultores familiares de Catuti construíram em suas propriedades grandes tanques, com o emprego de um material sintético, a geomembrana, que captam e armazenam a água da chuva para irrigação nos períodos de veranico. Também recorrem à água de captação subterrânea, com irrigação feita por gotejamento.

O sistema consome menos água, o que representa uma grande vantagem porque o nível do lençol freático da região é baixo e os poços tubulares têm baixa vazão. Eles recorrem à chamada “irrigação de salvação”, usada na falta de São Pedro.

Se a “seca braba” impõe barreiras, o sertanejo não desanima e está sempre disposto a encarar o desafio, fiel ao que cravou o escritor Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem”. Dessa forma, já que os volumes hídricos vindos do céu e do lençol subterrâneo são insuficientes, os agricultores familiares norte-mineiros otimizam o uso do recurso, comprovando que, sim, é possível vencer a adversidade climática no semiárido.

As inovações do município de Catuti são abordadas na quarta e última parte da série de reportagens do Estado de Minas sobre as estratégias voltadas para a conservação e uso racional da água e para a sustentabilidade.

Em Catuti, 17 pequenos produtores instalaram os tanques de geomembrana em 2019. O material foi doado e coube a eles somente o serviço de escavação para a abertura dos tanques. A doação veio por intermédio do Programa Mineiro de Incentivo à Cotinicultura (Proalminas), criado pela Associação Mineira de Produtores de Algodão (Amipa), em parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

A ação faz parte do Projeto de Retomada do Algodão do Norte de Minas, implementado em 2006, com o envolvimento de 86 pequenos agricultores de 13 municípios e que conta, ainda, com o apoio de uma organização não governamental (ONG) internacional: a Fundacion Soldariedad (sediada no Peru, com escritório em São Paulo) e do Instituto C&A.

MELHORIAS

Morador da localidade de Ferraz, na zona rural de Catuti, José Alves de Souza, o “Zé Brasil”, de 52 anos, é um dos agricultores que recorrem ao tanque de geomembrana. Com a inovação e seu esforço, pode-se dizer que ele, efetivamente, contribui com a melhoria da produção do país que carrega no apelido.

Zé Brasil está em uma das áreas mais secas do estado (microrregião da Serra Geral de Minas), onde a média histórica de chuvas gira em torno de 700 milímetros anuais. Na atual temporada, houve atraso nas chuvas e o volume de água ainda é baixo. De novembro até agora, foram registrados na região apenas 356 milímetros. Mesmo com esse percalço, em dezembro, o pequeno produtor plantou dois hectares de algodão e, “se tudo correr bem”, espera uma produtividade de 300 arrobas por hectare. A colheita está prevista para abril ou maio.

A boa expectativa de Zé Brasil deve-se à garantia de água para a lavoura, por conta de um tanque de geomembrana construído na propriedade. O reservatório ocupa área de 576 metros quadrados (m2) – 48m x 12m – e 1,5 metro de profundidade, com capacidade para o armazenamento de 1,08 milhão de litros de água. “Quando falta chuva, a água do tanque ajuda a salvar a lavoura”, afirma o agricultor.

Ele também recorre a um poço tubular. Como a vazão do poço é pequena, adota a irrigação por gotejamento, que garante maior eficiência e uma economia no uso de água da ordem de 40% em relação ao sistema de irrigação por aspersão.

Zé Brasil disse que, logo após a colheita do algodão, vai plantar um hectare de milho, com a pretensão de colher 100 sacas por hectare. Em pleno período crucial da seca, essa produtividade só será possível com a irrigação complementar por gotejamento, viabilizada com a água do tanque e do poço tubular.

Para reduzir custos, o pequeno agricultor também faz um experimento do uso de energia solar, captada em equipamento instalado no seu terreno, para irrigar a lavoura. Com isso, ele deverá economizar de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil entre o plantio e a colheita do algodão.

Outro que está satisfeito com o resultado da inovação é o agricultor José Alves de Souza, o Zezão, de 57, de Vista Alegre, no mesmo município. Ele construiu em seu terreno um tanque de 480m², feito com o uso da geomembrana, com capacidade para “segurar” 860 mil litros de água da chuva. “Se faltar a água da chuva, a gente completa com a irrigação”, diz Zezão, que também conta com um poço tubular “de baixa vazão”.

O pequeno agricultor salienta que, graças à irrigação complementar, mesmo com a irregularidade das chuvas no atual período, espera uma produtividade alta – de 230 a 250 arrobas por hectare. Ele ressalta que usa a água armazenada no reservatório para plantações de subsistência, como as de sorgo, feijão e milho. Também cria um gado de leite, fornecendo, atualmente, 60 litros diários para um laticínio da região. “Mas, também pretendo usar o tanque para criar peixes”, anuncia José Alves.

O assessor técnico da Cooperativa dos Produtores de Algodão de Catuti (Coopercat), José Tibúrcio de Carvalho Filho, ressalta que o uso da água da armazenada nos tanques, complementada com os poços tubulares, de fato, tornou-se a salvação das plantações de algodão na região. “Os veranicos (sol forte) ocorrem na região entre janeiro e fevereiro, justamente na época da floração do algodão. Faltando água para as plantas nesse período, as perdas na cotonicultura chegam a 90%. No caso dos grãos, as perdas são de quase 100%”, assegura o técnico, responsável pela implantação e coordenação do Projeto de Retomada do Algodão no Norte de Minas.

Ele salienta que os “piscinões” formados pelos tanques de geomembrana também têm vantagem ambiental, por reduzir a exploração da água subterrânea. “Isso é um fator importante, pois os poços tubulares de Catuti têm baixas vazões, que variam de 5 mil a 15 mil litros”, observa.

FORNECEDOR

Como muitos dos seus conterrâneos, Eudi Barbosa da Silva, de 36, deixou a localidade de Língua D’Água, na zona rural de Monte Azul, no Norte de Minas, para trabalhar em São Paulo como retirante da seca. Quatro anos depois, ele retornou ao lugar de origem e hoje tem uma ligação com o estado mais desenvolvido do país, mas em condição bem diferente. Ele é fornecedor de quiabo para o forte mercado consumidor da capital paulista.

A atividade envolve 12 pequenos agricultores de Monte Azul e de Catuti, que se dedicam à produção de quiabo e encaminham o produto para São Paulo. Juntos, eles “exportam” em torno de 14 toneladas por mês.

Eudi Barbosa recorre ao armazenamento de água em um tanque feito com o uso de geomembrana, que ocupa área de 360m² e tem capacidade para armazena 612 mil litros. O reservatório ajuda no cultivo de quiabo durante o ano inteiro. A área plantada é pequena, mas alcança uma produção significativa, que varia entre 1 mil e 1,5 mil quilos de quiabo, mensalmente.

Do Brasil para a África

José tibúrcio ressalta que as estratégias para o aproveitamento racional da água e convivência com a seca, adotadas dentro do Projeto de Retomada do Algodão no Norte de Minas também foram levadas a países da África, que têm clima semelhante ao semiárido brasileiro. Em 2017, o assessor técnico da Coopercat integrou uma missão no Mali, pequeno país africano. A ação foi liderada pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e pela Universidade Federal de Lavras (Ufla).

O técnico do pequeno município do Norte de Minas se prepara agora para ir a outro país daquele continente. Em fevereiro, vai repassar as informações sobre os bons resultados dos agricultores norte-mineiros para produtores de Moçambique. É a inovação voltada para o uso racional da água e a sustentabilidade atravessando oceanos em busca de melhores condições para as populações mais sofridas, como os moradores do semiárido brasileiro e do continente africano.

O que é a geomembrana

A geomembrana é um material sintético usado para impermeabilização de obras na construção civil e em especial obras geotécnicas e proteção ambiental. Também é usado como revestimento para reservatórios escavados (uso agrícola) e em aterros sanitários, biodigestores e tratamento de efluentes. A geomembrana é um polímero na qual sua principal matéria-prima é o petróleo. Tem durabilidade acima de 20 anos e o custo gira em torno de R$ 20 o metro quadrado.

Estado de Minas

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