Qual o poder de uma medalha olímpica conquistada em casa? Seis meses depois da cerimônia de encerramento dos Jogos, no dia 21 de agosto de 2016, Jornalistas procurou oito medalhistas do Brasil na Rio 2016, que representam sete dos 19 pódios que levaram o país ao 13º lugar. A redução de investimento em anos pós-olímpicos é normal, mas a crise econômica do país acentuou a situação. Estatais reduziram o patrocínio, como os Correios, e a Caixa Econômica Federal ainda negocia com as confederações que apoia.

O ginasta Arhur Zanetti se deparou com uma redução no apoio que chamou de “drástica”. Poliana Okimoto esperava mais reconhecimento após o bronze na maratona aquática. Diego Hypolito, prata no solo da ginástica, dá graças a Deus de ter mantido boa parte de sua estrutura. Arthur Nory, bronze na mesma prova, acredita que os investidores estejam desfocados. Bárbara Seixas e Ágatha desfizeram a dupla prata no vôlei de praia e viram o apoio minguar. Rafael Baby esperava que o segundo bronze no judô traria novos patrocinadores. Martine Grael e Kahena Kunze mantiveram boa parte da estrutura, mas ainda não avaliaram a redução no apoio.

Motivo de preocupação dos atletas, o Bolsa Pódio deverá voltar a ser totalmente pago em abril. De acordo com o Ministério do Esporte, a lista dos contemplados está prevista para ser publicada em março no Diário Oficial da União. Daí os atletas têm até 30 dias para enviar o Termo de Adesão.

Arthur Zanetti: “Não imaginava que seria tão drástico”

Ser campeão olímpico e vice nas argolas da ginástica artística não tornou a vida de Arthur Zanetti mais fácil em termos de apoio. Dos seis patrocínios até o fim do ano passado ele segue apenas com Aeronáutica e Adidas. Seu clube, o São Caetano, sofre com redução de investimento da prefeitura, que é quem acaba mantendo completa a sua equipe multidisciplinar, formada por médico, treinador, psicólogo, nutricionista e fisioterapeuta.

– Meu orçamento sofreu redução de 90%. Uma parte do dinheiro eu utilizava para os gastos do dia a dia, outra para comprar suplemento, material e protetor de argola, e outra parte eu guardava. A gente sabe que um ano pós-olímpico é mais complicado. Mas não imaginava que seria tão drástico. Acredito que dê para segurar mais uns dois, três meses. A gente está fazendo outras atividades que têm ajudado bastante, como alguns eventos para o Sesc e palestras. Eu fico um pouco preocupado. Se pelo meu histórico tenho dificuldade de conseguir, imagine quem está começando agora.

Depois de falhar nas duas Olimpíadas anteriores, Diego Hypolito atingiu a redenção no Rio faturando a prata no solo da ginástica artística. Ele passou a fazer mais palestras, mas acreditava que teria mais retorno.

– Aumentou o número de palestras consideravelmente. Foi o principal. Renovei com o meu clube, o São Bernardo do Campo. O país está passando por uma fase muito difícil. Até esperava patrocínios novos, mas pelo que estou vendo ao meu redor, estou dando graças a Deus de pelo menos manter o que já tinha. O único patrocínio que ainda não foi renovado foi o de Furnas. Tem o Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte, que foi renovado. Tem o ptrocínio da seleção, que estamos sem receber desde novembro, mas a confederação tem se reunido com a Caixa para renovar. Continuo recebendo do meu clube. A estrutura de treino se manteve toda. O meu médico continua me atendendo mesmo sem receber, mas a fisio eu tenho que pagar particular se eu não for até 12h no da Prefeitura de São Bernardo do Campo. A psicologia, o COB continuou comigo. A ginástica ainda está sendo privilegiada pela visibilidade que teve. Mas é um momento em que a gente tem que ter os pés no chão e tentar divulgar da maneira mais adequada para que daqui a uns dois anos a gente volte a ter um retorno financeiro bom. Não que não esteja sendo, mas acreditava que com uma medalha olímpica até teria mais.

Arthur Nory formou com Diego uma surpreendente dobradinha no pódio do solo com a medalha de bronze. Segue como atleta do Pinheiros e da Aeronáutica, e aguarda a renovação da bolsa do governo.

– A medalha olímpica não mudou em relação a patrocínios. Sobre estrutura, voltamos todos para os clubes. Treino em um local bem estruturado e equipado. E a minha equipe multidisciplinar se mantém também. Não sabemos como está a situação do centro de treinamento no Rio. Se para nós atletas já é difícil, imagina para quem está iniciando. Sempre recebo recados de jovens carentes de muito apoio e estrutura. A crise atrapalha muito, os interesses de investimentos estão um pouco desfocados. A situação atual faz a gente pensar sobre as duas possibilidades: do crescimento ou da posição permanente. Eu sempre acredito que algo vai melhorar.

 

Orçamento de campeãs da vela diminui, mas Kahena mostra otimismo


Primeiras campeãs olímpicas da vela brasileira, Martine Grael e Kahena Kunze perderam dois dos cinco patrocinadores que tinham antes dos Jogos. Seguem com Shell, Hyundai e Marinha. COB e CBVela seguem com a estrutura, e o técnico espanhol Javier Torres vai passar menos tempo com elas. Kahena conta como está a situação atual.

– Por enquanto continua tudo igual. Temos uma estrutura muito boa com uma equipe multidisciplinar oferecida pela CBVela e pelo COB. O orçamento geral diminuiu, mas não temos esse cálculo ainda. Está tudo muito novo, só fizemos uma competição depois dos Jogos, que foi a Copa do Mundo de Vela em Miami. Esse ano, por opção nossa, faremos um ano mais tranquilo de competições e passaremos boa parte do ano por aqui. O Javier abriu mão da vida pessoal dele na Espanha e se mudou para o Brasil, onde ficou todo o último ciclo olímpico para nos acompanhar. No momento ele só vai nos acompanhar nas competições lá fora, assim como os outros atletas do Brasil de 49er. E ainda estamos procurando alguém para nos auxiliar enquanto estivermos treinando aqui.

Poliana Okimoto: “A medalha não trouxe reconhecimento”


Medalha de bronze na maratona aquática, Poliana precisou se desfazer de quase toda sua equipe multidisciplinar. Paga o preparador físico e conta com o seu marido e treinador, Ricardo Cintra. No começo do ano não sabia qual competições faria em um ano de campeonato mundial.

– Sabia que seria bem complicado. Passamos por uma fase difícil, impeachment, novo governo. Mas pensava que teria uma recompensa, um contrato melhor. O atleta brasileiro merece. A gente espera que tivesse uma empresa do setor privado, que aparecem no ano olímpico e esquecem nos outros. A medalha não trouxe reconhecimento. Entendo que vivemos uma crise. Perdi 40℅ do meu orçamento. No fim do ano passado a incerteza era maior. Agora está mais tranquilo. Tenho que agradecer à Unisanta, à Speedo e às Forças Armadas. Perdi o patrocínio dos Correios, que pagava a minha equipe multidisciplinar. Contratei uma empresa para buscar um patrocínio. Estava zerada no início do ano, mas o Bolsa Pódio foi renovado. A minha equipe se reduziu. Estou só com o preparador físico, que me ajudou muito na medalha, e que continuo pagando do meu bolso. Muita gente tem feito na base da amizade, como o meu fisioterapeuta.

Medalha de prata na Rio 2016 ao lado de Ágatha, Bárbara Seixas está fazendo dupla com Fernanda Berti neste início de ciclo olímpico. Apesar do pódio no Rio, a jogadora lamenta a perda de muitos apoios que tinha antes da competição carioca:

– Infelizmente, em termos de patrocínio e de verba, meu orçamento diminuiu bastante. É até normal, depois de tanto investimento para a Rio 2016. Muitos patrocínios estão para renovar, mas não conseguimos por causa da crise. Atualmente, tenho co-patrocinadores, mas não consegui assinar nada. Eu continuo integrada à Marinha, inclusive são de grande ajuda, pois sempre dão estrutura e estão dispostos e solícitos aos nossos pedidos.

Parceira de Bárbara no Rio, Ágatha também formou um novo time para o ciclo de Tóquio 2020. Ao lado da jovem Duda, já começou 2017 com bons resultados, como a prata na etapa dos Estados Unidos do Circuito Mundial. Ela explica que, depois do pódio nos Jogos do Rio, não conseguiu nenhum novo patrocínio.

– Estou com vários projetos espalhados por empresas e não houve entrada em nenhuma para conseguir. O cenário está difícil, acho que para esse ano está se mudando o astral, tem muitas chances de se conseguir captar a partir de agora. A questão não foi nem um pouco fácil depois dos Jogos. Continuamos a parceria com as Forças Armadas e a tendência é seguir até 2020 com eles. Em relação aos outros patrocínios, cada caso é um caso. Eu tinha um patrocínio que ia só até agosto e não se renovou. Aí eu tive um patrocínio que não renovou porque nós abrimos a dupla.

O judoca Rafael Silva imaginava que poderia angariar novos patrocínios individuais depois da segunda medalha olímpica de bronze na categoria pesado (+100kg). Ao menos teve a sua estrutura mantida e ainda consegue dar palestras e clínicas.

– Perdi um patrocínio e mantive parceiros de longa data. Quanto aos patrocínios individuais, estes ficaram aquém do que eu imaginava. Mas a segunda medalha olímpica proporcionou convites para ministrar clínicas judô e palestras. Consigo treinar e me dedicar inteiramente ao esporte. Os incentivos de instituições como Bolsa Atleta, Confederação Brasileira de Judô e do Clube Pinheiros continuaram. A estrutura para a prática esportiva também. Alguns materiais oriundos das Olimpíadas melhoraram a estrutura. É normal ter mais verba com um evento deste tamanho acontecendo em casa. As confederações que souberam investir e realmente construíram uma estrutura sólida pensando na formação dos futuros atletas a longo prazo sairão na frente para potenciais medalhas em 2020 e 2024.

Globo Esporte

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