Há 17 meses à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, Alexandre Kalil diz que até o final do mandato conseguirá fazer a cidade funcionar “bem” e que acumula frustrações diante da burocracia do serviço público.

Entre os momentos delicados do governo, a greve dos professores da rede de educação infantil (que completa 44 dias nesta quarta-feira) e o embate com as empresas de transporte em torno do reajuste de 10,55% nos preços das passagens de ônibus – negado pelo prefeito e cuja decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça.“É duro ser prefeito de Belo Horizonte”, disse Kalil, em entrevista ao Estado de Minas.

]Na esfera política, o prefeito conta que já conversou com vários pré-candidatos a governador de Minas e presidente da República, mas, por enquanto, nenhum deles terá a sua companhia na campanha eleitoral. “Não tenho obrigação de apoiar ninguém por um detalhe muito simples: nenhum desses candidatos me apoiou”.

Com quase um ano e meio de gestão, quais avanços o sr. pode dizer que trouxe para BH?

Dentro do possível, cumprir promessas e fazer a cidade funcionar. Eu acho que o que falta ao meio político é o senso do ridículo e da realidade. A máquina tem de funcionar num processo único, que é de enxugamento, de absoluta honestidade com o dinheiro público, sabendo como e onde gastar. Tenho um governo altamente participativo, com todos os secretários colocando seus pontos de vista, todos os presidentes de empresas e autarquias, e a gente avaliando o que é realmente importante para gastar. Acho que a cidade estará funcionando bem até o final do meu mandato.

O que não conseguiu fazer?
Tive várias frustrações. O processo licitatório e burocrático é algo que te impede de fazer muita coisa com o dinheiro em caixa. Na verdade, isso não aparece para a população, mas a burocracia segura muito o bem-estar, principalmente do povo mais pobre. Então, o descalabro aconteceu de uma forma tão grosseira no Brasil que se amarrou muito, parte-se do princípio que todo mundo é desonesto. Então foram criados mecanismos que prejudicam a população, que tem de receber esse dinheiro lá na ponta. Não podemos jogar dinheiro fora, e temos que segurar para esperar o processo burocrático passar para a gente gastar onde quer gastar.

Com a greve dos caminhoneiros já há uma previsão de queda na arrecadação de impostos, redução no PIB… A prefeitura está preparada para isso, especialmente em um momento de pressão do funcionalismo para reajustes?
Quando a gente fala que pode dar o aumento dentro da realidade, a população e as classes – os professores, os guardas (municipais), os médicos, enfermeiros – não entendem que existe um gap de imprevisibilidade. E se acontecer alguma coisa? Por exemplo: na própria semana do desabastecimento já tínhamos um fornecedor de combustível que queria receber à vista. Por que não houve desabastecimento na prefeitura? Porque, se houvesse, nós tínhamos um dinheiro para reabastecer a prefeitura. O que todo mundo tem de entender é que isso aqui não é um banco, não tem que gerar lucro. Isso aqui é o poder público, que tem que investir até o último centavo na população. Se eu pegar uma classe e entregar o dinheiro todo, vamos cair nesse erro histórico que aconteceu no Rio de Janeiro, no estado de Minas Gerais. E nós temos que parar também de jogar tudo na conta dos caminhoneiros. Não é possível que o Brasil vai deixar de crescer 2%, 3%. Num estado que tem um rombo de R$ 8 bilhões, a culpa é dos caminhoneiros, que fizeram uma greve de poucos dias? Eu não consigo enxergar economicamente o prejuízo. Ele é momentâneo. Essa conversa de caminhoneiro já está enchendo o saco, ninguém aguenta mais.

Quando o sr. fala que os servidores precisam entender a questão da imprevisibilidade na administração, está mandando um recado especialmente para os professores da educação infantil?
Outro dia eu escutei uma entrevista de um diretor do SindRede dizendo que a prefeitura tinha R$ 600 milhões por ano para gastar com a folha de pagamento, que é o teto do gasto. Olha a mentalidade do sindicato, que temos que gastar tudo em salário. Isso quer dizer o seguinte: como é que eu vou comprar remédio? A PBH coloca R$ 1,5 bilhão na saúde a mais do que a lei manda, desde que assumi. Vou tirar esse dinheiro de onde? Nós gostamos de fazer maldade com os outros? Vamos guardar esse dinheiro porque a gente acredita que um salário de R$ 1,7 mil, R$ 2 mil, é um bom salário? É claro que ninguém é bobo. Mas tem que entender que a responsabilidade fiscal foi abandonada no Brasil. Você vê aí, vão tirar R$ 0,46 do óleo diesel, ninguém falou em cortar ministérios, ninguém falou em mandar ninguém embora. O que tem que ser feito para cobrir rombo de governo é economia. Mas vão tirar da saúde, da educação. Na hora da crise ninguém botou a cara para dizer o que faria. Tem que botar a mão é no funcionalismo público, mandar quem não é concursado para a rua, fechar ministério que não serve para nada.

O sr. prometeu abrir a caixa-preta da BHTrans e conseguiu barrar, até agora, o aumento nas passagens de ônibus. Até quando vai conseguir manter a tarifa atual?
A caixa-preta está aberta e uma empresa está fazendo auditoria na BHTrans, e quero trazer a oposição na Câmara para fiscalizar. Dizem aí: o Kalil não quer a CPI da BHTrans. Eu nunca dei um aumento para ônibus, o que eu temo dentro da BHTrans no meu governo? Nem isso o pessoal da oposição pensa. Nunca trabalhei na minha vida para não ter CPI. Só não gosto de CPI como palanque eleitoral para quem não faz nada para a cidade. Do mesmo jeito foi a CPI do Marcio Lacerda, que foi exclusivamente para desgastá-lo. Se tem alguma coisa, mostra, prova. Fazer de CPI palanque para vereador projeto zero é que não dá. Prometi que não ia aumentar ônibus e não aumentei. Mas agora nós vamos ter que ver, estamos indo para o segundo ano. Vamos sentar e conversar no bom senso.

O sr. sofre algum tipo de pressão para o aumento das passagens?
Os empresários querem o reajuste, mas não tenho motivo para ser pressionado. Eu os conheci quando prefeito e sou muito respeitado por eles. Não sei até quando vamos manter o preço porque o ano ainda não acabou, então não antecipo problemas. A minha expectativa é manter o preço até o final do ano, não tenha a menor dúvida. Mas não sei se dá para manter. Nós vamos espremendo a goela deles para ver até que hora eles aguentam. Existe um negócio que eles falam que é muito interessante. Parece que eles querem aumentar e é ótimo. A história não é bem assim. Há um declínio de passageiros no transporte público de BH, eles ficam entre a cruz e a caldeirinha. Se aumentar (a passagem) perco cliente. Se não aumentar, não rodo. Tem táxi-lotação, tem Uber, tem Cabify. Então eles não podem perder essa concorrência. Eles têm esse dilema de quando e quanto aumentar.

O governo de Minas avisou que não vai reduzir o ICMS dos combustíveis. Esse não é mais um motivo para pressão pelo aumento da passagem de ônibus?
Eu não admito que ninguém palpite nos meus impostos, então que o governo do estado cuide dos dele. Volto a dizer: a recuperação se dá através de corte sério, na carne. Se subir o imposto, tem que ver quanto, como e porque subiu. É mais fácil subir ICMS que cortar secretarias. Se o governo já se armou para esse tipo de imposto, como é que você faz agora para cortar receita? É um problema que se eu quisesse resolver, seria governador do estado.

E por falar em governo do estado, vai apoiar quem nas eleições?
Não sei. Quem são os candidatos? O quadro tem que se definir. E eu, como prefeito de Belo Horizonte, não tenho obrigação de apoiar ninguém por um detalhe muito simples: nenhum desses candidatos me apoiou (durante a campanha de 2016). Por obrigação, prefiro não apoiar ninguém. Não vem falar assim, o senhor é um ingrato porque fulano de tal te apoiou. Não me apoiou, não me ajudou, não me dão um vintém, e quando puderam, atrapalharam. Por que eu vou apoiar alguém? Eu não preciso do estado, o estado está quebrado. Eu vou alisar candidato a governo para que? Nem dinheiro eles têm para me dar, não pagam o que devem. E se não entrar com uma reforma estupidamente violenta no estado de Minas Gerais nos próximos quatro anos, vão continuar devendo as prefeituras e os funcionários. O resto é balela.

A tendência então é não subir em nenhum palanque?
É. Até porque palanque eu experimentei o meu e posso dizer que é muito chato.

O sr. já foi procurado por algum candidato?
Todos. Fui procurado para conversas amenas com Marcio Lacerda, Rodrigo Pacheco,  Anastasia, Pimentel, Dinis Pinheiro, Zema. Todos vieram me fazer uma visita de cortesia, me falaram sobre campanha mas nenhum me pediu para participar.

Vai apoiar algum candidato a presidente?
É a mesma coisa. Quem são os candidatos? O Ciro é um bom candidato, gosto da postura dele. Álvaro Dias é um bom candidato. O Alckmin eu não conheço, nunca esteve comigo. O Bolsonaro me parece que não é o que vem dizer, ele precisa ser um pouco polido, o Lula se for candidato é um bom candidato, tem coisas prestadas ao país. A Marina esteve comigo, é muito fina e educada, está preparada economicamente. Você me pergunta, o senhor vai apoiar quem? E eu te pergunto: você ouviu o que de quem? Tivemos uma crise de caminhoneiros e eu escutei o governador e o prefeito de Betim falar. Ninguém mais falou. Uai, então na hora do problema ninguém põe a cara para fora? O assunto é muito simples: eu não sei quem eu vou apoiar mesmo não, eu não sei o que eles pensam. Quem vai acabar com a farra dos não concursados para pelo menos os trabalhadores receberem em dia? Quem que me encantou até agora para votar? Ninguém.

Qual nota daria para a administração de Pimentel e Temer?
Eu não posso dar nota porque não conheço o problema de cada um. Posso opinar pontualmente por cada fase. Faltou ao Pimentel meter a faca da carne. Mas não se culpa um governo pelo que está acontecendo em Minas, vamos deixar isso bem claro. Gosto muito do professor Anastasia e me tornei amigo do Pimentel. Vamos dividir essa conta. O Michel Temer foi colocado lá e tentou fazer alguma coisa mas foi refém de uma quadrilha que governa o país hoje, então não posso avaliá-lo. Como cidadão eu posso opinar, mas quem sou eu para falar de um governador de estado. Eu não tenho ideia do que é ser governador de estado. Mas a receita é gastar bem, não roubar, não deixar roubar. Essa é a coisa mais simples do mundo. Vocês acham que é fácil ver árvore caindo, podar árvore, asfaltar, manter médico, contratar mais de 1,5 mil profissionais de saúde, concurso para guarda municipal, aumentar salários, comprar equipamentos. É duro ser prefeito de Belo Horizonte.

Vários prefeitos têm reclamado do atraso nos repasses pelo governo do estado. BH também vem sofrendo com isso?
Eu não faço propaganda, mas outro dia fui lá cobrar o meu dinheiro da saúde. Levei para ele (Pimentel) uma conta de R$ 170 milhões. O IPVA e o ICMS foram pagos com atraso, junto com as outras prefeituras. O governo federal não nos deve nada, mas é claro, é ridículo o que ele passa. Vai tirar agora da saúde para dar para a gasolina. Por que não joga um palácio no chão? Tem dois lá, o do Planalto e Jaburu. Por que não joga uma porcaria daquela no chão e manda todo mundo embora?

Se o sr. estivesse no lugar do presidente Temer, o que teria feito de diferente em relação à greve dos caminhoneiros?
Eu teria pedido uma equipe competente que levantasse quantas lideranças são dos caminhoneiros. Já apurei que são 37. Convocaria todos para o Palácio do Planalto, trancaria a porta, pediria 150 pizzas de presunto e mussarela e 30 litros de coca- cola e só sairia de lá com o negócio resolvido. É assim que sei fazer as coisas.

O sr. tentou essa estratégia com os professores?
Não, eles não deixam. Eu pedi pelo amor de Deus para eles não entrarem em greve, propus reuniões diárias, recebo vocês todos os dias às 18h aqui na prefeitura. Sabe por que eles estão sem rumo? Porque sabem que fizeram errado e que eu não trabalho assim.

Estado de Minas

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