Mesmo preso há 30 dias na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, no Paraná, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua ditando as regras no partido e é, até o momento, a opção da legenda para disputar a Presidência da República em 2018. Ainda que a condenação a 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex no Guarujá (SP), pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), o tornem inelegível pela Lei da Ficha Limpa, boa parte dos petistas não admite a possibilidade de discutir um plano B para a sucessão de Michel Temer.

O PT fará a convenção partidária em 28 de julho para oficializar a candidatura de Lula e planeja registrá-la em 15 de agosto. Desde a prisão, a estrutura política do PT nacional passou a funcionar em Curitiba. E, agora, com a autorização judicial para receber amigos e aliados às quintas-feiras – serão dois a cada dia, durante uma hora – Lula poderá tomar a frente de articulações políticas. Na semana passada, ele recebeu a presidente nacional da legenda, Gleisi Hofman, e o ex-ministro Jaques Wagner – que é cotado para substituir Lula ou mesmo compor zchapa com Ciro Gomes (PDT).

O presidenciável do PDT, aliás, tentou visitar Lula na semana seguinte à prisão, mas teve o pedido negado pela 12ª Vara Federal de Curitiba e pelo TRF-4, sob o argumento que o requerimento poderia ser feito apenas por familiares. Além de Ciro, tentaram estar com o petista o presidente do partido, Carlos Luppi, e o líder do PDT na Câmara dos Deputados, André Peixoto Figueiredo Lima. Na semana passada, Jaques Wagner chegou a sugerir o apoio do PT ao nome de Ciro – declaração que foi rechaçada por Gleisi.

Nos bastidores, é grande a queda de braço entre os petistas. Há o temor que a insistência no nome de Lula – que pode ser barrado pela Justiça Eleitoral até mesmo às vésperas da eleição – pode fazer com que o partido não tenha tempo hábil para trabalhar outra candidatura, perdendo a chance de voltar para o cargo que ocupou por 13 anos.

Um mês na cadeia

Lula está preso em uma sala de 15 metros quadrados no último andar da sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. O local tem uma cama de solteiro, uma mesa e banheiro privativo. O petista tem direito a três refeições por dia, preparadas e levadas à PF por uma empresa terceirizada. Por autorização do juiz Sérgio Moro, foi instalada uma televisão com direito apenas aos canais abertos. Confira os principais acontecimentos nestes primeiros 30 dias de prisão.

Encontro com a família

Embora a regra na sede da PF seja a visita de familiares na quarta-feira, os parentes de Lula só poderão vê-lo às quintas-feiras. A troca na data foi pedida pela defesa do ex-presidente e negociada com a Polícia Federal. A justificativa é evitar o encontro com familiares de outros presos, como delatores que levaram Lula à prisão e que estão no mesmo prédio. Na primeira visita estiveram com o petista, durante duas horas e meia, os filhos Fábio Luís, Luís Cláudio e Lurian e o neto Thiago.

Barrados na porta

Em 10 de abril, nove governadores foram barrados na porta da Superintendência da Polícia Federal. Tudo porque a juíza Carolina Moura Lebbos, da 12ª Vara de Execuções Penais, negou o pedido para que eles se encontrassem com o ex-presidente Lula. No despacho, a magistrada alegou que não havia motivo para flexibilizar o regime de visitas. Até porque o juiz Sérgio Moro já havia se manifestado contra qualquer privilégio para visitas ao petista. Estiveram no local os governadores do Acre, Tião Viana (PT); Amapá, Valdez Goes (PDT); Alagoas, Renan Filho (PMDB); Bahia, Rui Costa (PT); Ceará, Camilo Santana (PT); Maranhão, Flávio Dino (PCdoB); Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB); Pernambuco, Paulo Câmara (PSB); e Piauí, Wellington Dias (PT).

Novos Lulas

Na primeira semana da prisão de Lula, mais de 60 parlamentares pediram para incluir a alcunha do petista no nome parlamentar deles no painel eletrônico nos plenários da Câmara dos Deputados e Senado. O ato simbólico é de solidariedade e protesto pela prisão do ex-presidente. Em resposta, houve quem pediu para incluir Moro, Bolsonaro ou Lava-Jato em seus nomes parlamentares. Na Assembleia de Minas Gerais, os nove deputados estadual fizeram requerimento para alternar o nome.

Pedidos de transferência

Se dependesse da Polícia Federal e da Prefeitura de Curitiba, Lula já teria deixado a capital paranaense poucos dias depois da prisão. O primeiro pedido de transferência do petista foi apresentado no dia 11, pelo Sindicato dos Delegados de Polícia Federal do Paraná. Eles sugeriram que Lula fosse encaminhado para uma unidade das Forças Armadas com “efetivo e estrutura à altura dos riscos envolvidos”. Dois dias depois, em 13 de abril, foi a vez de a Procuradoria-Geral da prefeitura de Curitiba solicitar à Justiça Federal a transferência dele para local não indicado. O argumento é que a permanência do ex-presidente na sede da PF causa “transtornos a funcionários da corporação e moradores”.

O real do “Lula livre”

Já circulam pelo país várias notas com a mensagem carimbada “Lula livre”. Foram tantas as informações nas redes sociais e grupos de WhatsApp de que o Banco Central teria proibido a rede bancária de aceitar as notas carimbadas ou escritas, que o próprio órgão emitiu uma nota, no último dia 2, em que desmentiu a versão. “Cédulas com rabiscos, símbolos ou quaisquer marcas estranhas continuam com valor e podem ser trocadas ou depositadas na rede bancária”, diz o texto. De acordo com o BC, notas “descaracterizadas” apresentadas na rede bancária serão recolhidas para destruição, mas isso não tira o valor das cédulas.

Atentado a vigília

Um acampamento foi montado a 750 metros da sede da PF em Curitiba, onde apoiadores garante que farão uma vigília até que o petista seja solto. No dia 28, o grupo foi alvo de um ataque a tiros por volta das 4h da madrugada, deixando duas pessoas feridas. Jeferson Lima de Menezes, de 39 anos, foi encaminhado ao Hospital do Trabalhador com um tiro no pescoço, de raspão. Ele chegou a ser internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Trabalhador, na capital paranaense, mas não houve necessidade de procedimento cirúrgico. Os tiros aconteceram no mesmo dia em que completou o ataque contra ônibus da caravana de Lula pelo Sul do país, também no Paraná. Houve ameaças de morte antes dos tiros, segundo testemunhas.

Por dentro da política

Depois de vetar a visita de amigos e aliados políticos, no último dia 3, a juíza Carolina Lebbos autorizou que duas pessoas fora do círculo familiar de Lula, pedidas por ele por meio de sua defesa, possam vê-lo durante uma hora às quintas-feiras. Familiares e amigos terão que se revezar, já que só é permitida a entrada de duas pessoas a cada vez. A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hofmann (PR), e o ex-ministro Jaques Wagner (PT) foram os primeiros autorizados a estar com Lula.

Entrevista à Al Jazeera

Logo que Lula foi preso, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, deu várias entrevistas à imprensa internacional queixando-se do que classificou como uma prisão política. Mas uma em especial, concedida à rede de TV AL Jazeera, ganhou os holofotes. Tudo porque a oposição acusou a senadora de crime contra a segurança nacional por ter falado à principal rede de televisão do mundo árabe. A entrevista foi parar na Procuradoria-Geral da República, por meio de uma representação apresentada pelo deputado Major Olímpio (PSL-SP). O vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia, arquivou o pedido. “O que foi dito pela presidente do PT e senadora é um discurso político, em legítima manifestação de seu pensamento e de sua opinião. Sua manifestação não caracteriza conduta típica, punível e culpável”, alegou.

Julgamento virtual

O Supremo Tribunal Federal (STF) começou na última sexta-feira o julgamento virtual de um pedido de liberdade apresentado pela defesa do ex-presidente Lula. Os ministros da Suprema Corte têm até a próxima sexta-feira para apresentar o voto, mas podem fazê-lo antes.

Estado de Minas

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