O governo francês procurava, neste domingo (2), como superar a crise provocada pelos distúrbios inéditos que agitaram Paris no dia anterior durante durante os protestos dos “coletes amarelos”, mas o presidente Emmanuel Macron preferiu manter o silêncio.

“O presidente da República não vai falar hoje”, informou o Palácio do Eliseu, após a reunião de crise que ele presidiu com o primeiro-ministro Edouard Philippe, o ministro do Interior Christophe Castaner e “autoridades competentes”.

Mas ele pediu ao primeiro-ministro que receba “os líderes dos partidos representados no Parlamento, bem como representantes dos manifestantes”.

Antes disso, o presidente foi ao Arco do Triunfo, famoso monumento parisiense que sofreu danos no sábado durante o terceiro dia de mobilização dos “coletes vermelhos”.

Um total de 136.000 pessoas participaram no sábado dos protestos em toda a França.

A violência deixou 263 feridos em todo o país, incluindo 133 na capital, enquanto 378 pessoas foram detidas, segundo um balanço oficial divulgado neste domingo. Sua escala, inédita em Paris nas últimas décadas, levou Edouard Philippe a cancelar sua viagem à Polônia para a cúpula climática da COP24.

O Senado francês também anunciou neste domingo que convocou para terça-feira os dois ministros da segurança para “explicações sobre os meios estabelecidos pelo ministério do Interior” no sábado.

Sábado à noite, enquanto veículos queimavam no coração de Paris, lojas eram saqueadas e barricadas erguidas entre opulentos edifícios.

Emmanuel Macron acusou manifestantes violentos de quererem apenas o “caos”. Seu ministro do Interior, Christophe Castaner, não descartou a possibilidade de estabelecer estado de emergência para evitar um novo surto de violência no próximo final de semana.

Segundo o presidente, os distúrbios “nada têm a ver com a expressão do descontentamento legítimo” dos “coletes amarelos”, um movimento social de franceses modestos que inicialmente se opunha ao aumento do preço dos combustíveis, e que depois se expandiu para o problema do poder de compra, e que acusa o governo de Emmanuel Macron de tratá-los com desprezo e intransigência.

Após a violência de sábado, dia também marcado por manifestações e confrontos nas províncias, algumas vozes do poder sugeriram que haverá mudanças, pelo menos na forma, da ação governamental.

“Pecamos por estarmos muito distantes da realidade dos franceses”, declarou o novo líder do partido de Macron LREM (A República em Marcha), Stephane Guerini.

Sábado à noite, Castaner reconheceu que o governo “se ateve a discutir a necessidade de abandonar o petróleo”, já que a explosão da ira popular foi devido a um projeto de imposto sobre o combustível destinado a financiar a transição ecológica.

Mas a oposição e parte dos “coletes amarelos”, movimento sem estrutura nem líder claro, reclamam um forte gesto ao governo, começando com uma moratória ou um congelamento no aumento dos impostos sobre os combustíveis.

À direita, o presidente do partido Republicanos, Laurent Wauquiez, reiterou seu apelo à organização de um referendo sobre a política ecológica e fiscal de Emmanuel Macron. Marine Le Pen (extrema direita) pediu para ser recebida por Macron com os outros líderes dos partidos políticos da oposição.

À esquerda, o líder dos socialistas, Olivier Faure, exigiu medidas voltadas para o poder de compra.

Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, pediu o restabelecimento do imposto sobre as grandes fortunas, enquanto aplaudiu “a insurreição cidadã” que “faz tremer o mundo do dinheiro”.

Diante das reivindicações, o governo anunciou medidas de auxílio (verificações de energia, bônus de conversão), mas descartou qualquer mudança de direção. Neste domingo, seu porta-voz, Benjamin Griveaux, reiterou essa posição, “porque o curso é o certo”.

Diante da dificuldade de canalizar para uma estrutura de negociação um movimento popular nascido fora de qualquer estrutura, Griveaux lembrou a disposição do governo em dialogar, assegurando que o Executivo está “pronto” para discutir com representantes de “coletes amarelos”.

Estado de Minas

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