A chuva que superou a média histórica esperada para novembro em Belo Horizonte entrou em dezembro, período em que historicamente mais chove na cidade, da mesma forma que terminou o mês anterior na capital mineira. Contínuas e com momentos de maior intensidade, as precipitações não deram trégua nos três primeiros dias do último mês do ano e fizeram a Defesa Civil emitir, pela manhã, um alerta, que vale até as 8h de hoje, para um volume que pode chegar a 50 milímetros.

À tarde, o órgão também chamou a atenção para o risco de deslizamentos, quedas de muro, escorregamentos e erosões nos próximos dias. A situação obriga moradores, especialmente os que habitam 1.165 edificações erguidas em pontos de alto risco em vilas e favelas da cidade, a permanecerem vigilantes o tempo todo, principalmente pelo risco geológico que a chuva constante traz. Na Vila São Paulo, comunidade que fica nos limites entre BH e Contagem, na região metropolitana, às margens do Córrego Ferrugem e do Ribeirão Arrudas, há risco tanto de inundações quanto de deslizamentos de terra. Um vazamento recente no local potencializa o problema e por isso a preocupação da população é ainda maior.

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que a chuva de novembro superou os 239,8 milímetros esperados para o mês em BH, com base na média entre 1981 e 2010, chegando a 254,7 milímetros. Esse resultado coloca novembro de 2018 em quarto lugar nesta década em relação à quantidade de chuva, perdendo para o mesmo período em 2011, 2012 e 2016 (veja quadro). A meteorologista Anete Fernandes, do Inmet, explica que o mês foi marcado por um canal de umidade mais constante vindo da Amazônia, associado a sistemas frontais vindos do oceano. “Essa situação gerou mais de uma vez a ocorrência de dias seguidos de chuva”, diz a meteorologista. A expectativa para hoje é de céu nublado na capital mineira, porém sem a ocorrência de chuvas constantes e mais pancadas isoladas, evoluindo para tempo aberto amanhã. “O deslocamento do canal de umidade da Amazônia para a Região Centro-Sul da Bahia vai influenciar mais a faixa Norte de Minas Gerais em relação às chuvas”, acrescenta a meteorologista. Porém, o próximo fim de semana deve ser marcado por novas chuvas, graças a uma nova configuração da atmosfera.

Esse perfil observado em novembro se manteve nos três primeiros dias dezembro, com tempo fechado e chuva contínua, alternando com momentos de precipitação mais intensa. Os dados do Inmet mostram que a média de chuva é de 358,9 milímetros para o último mês do ano, mês da estação das águas em que mais chove. Situação que redobra o alerta da Prefeitura de BH principalmente por conta das 1.165 edificações construídas em áreas de alto risco geológico na cidade. Segundo a diretora de Áreas de Risco da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), Isabel Volponi, enquanto o foco do órgão durante a seca é mais voltado para as obras de prevenção nesses pontos de maior risco, durante as chuvas o trabalho se concentra em vistorias na cidade.

“As chuvas contínuas afetam o nível de saturação do solo e ele perde a estabilidade natural. Nesse período, intensificamos a sensibilização das pessoas, para que fiquem atentas a rachaduras, inclinação da vegetação, entre outros sinais. Fazemos vistorias, mas não temos condição de monitorar todas as áreas, por isso apostamos em um monitoramento compartilhado. O morador recebe a instrução e tem que observar se tem algum sinal, para solicitar nova vistoria, se for o caso”, diz a diretora.

PREOCUPAÇÃO Com chuvas constantes, cresce a preocupação de moradores que vivem em áreas de risco, seja para alagamentos ou deslizamentos de terra. No caso da Vila São Paulo, comunidade que fica nos limites de Contagem e BH às margens do Córrego Ferrugem e do Ribeirão Arrudas, na beira da Avenida Tereza Cristina, há ambos os riscos, o que tira o sono da população local. “Na época das águas a gente não dorme quando chove. Não dá para descuidar. O alerta é o tempo todo, a noite inteira e o dia inteiro”, diz a dona de casa Márcia Gonçalves Gomes da Costa, de 50 anos, que é uma das integrantes do Núcleo de Alerta de Chuva (NAC) criado pela Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil de BH.

Recentemente, a preocupação dos moradores é ainda maior por conta de um vazamento que não se resolve, no cruzamento das avenidas Tereza Cristina com a Presidente Castelo Branco, no acesso ao Bairro das Indústrias, na Região do Barreiro. “A água chega a subir um metro e meio de altura, é uma situação que potencializa demais os riscos de inundação com a chuva. A Copasa já veio umas cinco vezes, mas não houve solução até hoje”, diz ela. Ontem, mesmo com o nível do Arrudas longe de alcançar o limite da calha, o vazamento provocava um pequeno alagamento, com carros jogando água enquanto passavam na via.

Sobre o problema, a Copasa afirma que está prevista uma obra para ser executada hoje, mas para se ter uma solução definitiva, precisaria que não chovesse nos próximos dias, o que está fora das previsões meteorológicas. “A Copasa informa que a recolocação do tampão do poço de visita na Avenida Tereza Cristina com Avenida Presidente Castelo Branco, no Bairro Vila São Paulo, em Contagem, está programada para ser executada nesta terça-feira (hoje). É importante destacar que, para que o problema seja solucionado de forma definitiva, são necessários alguns dias sem chuva”, informou por meio de nota.

Interior de Minas também sofre

Belo Horizonte não é a única cidade mineira com ocorrências em virtude da chuva. Cidades do interior do estado também tiveram problemas com deslizamentos, alagamentos e desabamentos. No Triângulo Mineiro, casas foram interditadas por causa de quedas de muros. O mesmo ocorreu em Santa Luzia, na Grande BH, depois que um barranco cedeu. Na BR-267 em Campestre, no Sul do estado, a rodovia foi parcialmente fechada depois de um escorregamento de terra. Ninguém ficou ferido.

Em Uberlândia, muros de casas desabaram próximo a uma obra do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). No local, houve um deslizamento de terra, o que provocou os danos nas residências. Ninguém ficou ferido. De acordo com o órgão, equipes deslocaram ao local junto com a Defesa Civil do município para verificar a situação e “definir a melhor solução para o problema”. A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Uberlândia para saber mais detalhes sobre o caso, mas até o fechamento desta edição não houve retorno. No fim de semana, a chuva provocou diversos pontos de alagamentos.

Situação semelhante foi registrada em Uberaba, cidade vizinha. Devido a chuva, uma residência localizada na Rua das Macieiras desabou. A Defesa Civil da cidade foi até o local para avaliar a situação do imóvel, que acabou interditado. Nenhum morador ficou ferido. No domingo, os militares fizeram o salvamento de um cachorro que caiu em uma vala, que se abriu devido ao afundamento de um poste às margens da Rua Milton Stefani.

No Sul de Minas, a queda de barreira interditou parcialmente a BR-267, no Km 472.  Um deslizamento despejou lama e pedras na pista em direção a Machado. Nenhum veículo foi atingido. Motoristas que passavam pelo trecho acionaram a polícia por volta da 1h30 para informar sobre o incidente. Equipes da Polícia Militar Rodoviária (PMRv) de Poços de Caldas e do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DEER-MG) foram empenhadas para resolver a situação.

GRANDE BH Um barranco cedeu no fim da madrugada de ontem em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o fato aconteceu às 5h39 e ficou constatado que houve um deslizamento de terra na Rua Três, Bairro Castanheiras. Os bombeiros informaram que ninguém ficou ferido, já que os moradores haviam deixado a residência.

Estado de Minas

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